quinta-feira, 25 de abril de 2013

Alunos criam projeto para adotar intercambistas

Por Aline Souza
Do Entre Embarques

Claudia Muñoz Gallego, 24 anos, é espanhola, e chegou em Curitiba há três meses. Ela deixou Ávila - uma pequena cidade localizada a 100 km de Madrid, capital da Espanha -, para estudar engenharia florestal no Brasil durante um semestre. Quando chegou na cidade, não falava uma frase em português, exceto o que tinha aprendido nos guias de viagem, antes de embarcar para o Brasil. Hoje, já se virando bem em "portunhol", Clau Trotamundos, como gosta de ser chamada, conta que a maior dificuldade que passou ao chegar em território nacional foi aprender a se localizar na cidade.

"Eu já estive na Angola, três anos atrás, mas não lembrava de nada do português. Mesmo assim, o idioma não foi o maior problema, acho que a maior dificuldade foi aprender a se locomover de ônibus aqui", diz a intercambista. Clau, que já embarca em aventuras sozinha, toda semana descobre um roteiro inédito - até para os curitibanos. "Eu não quero conhecer só lugares turísticos, então sempre estou em busca de algo novo. Pergunto para amigos ou professores, ou busco dicas na internet", conta a futura engenheira. Essa desenvoltura, no entanto, é fruto das boas amizades que conquistou na cidade, que a ajudaram nas primeiras semanas que ela chegou no Brasil.

Foto: Clau quer conhecer além dos destinos turísticos / Arquivo Pessoal

A estudante de arquitetura, Leyre Rada, 22, também da Espanha, chegou em julho do ano passado para estudar em Curitiba por um ano. Ela conta que o mais difícil, além do idioma, foi providenciar a documentação brasileira. “A língua no começo era bem difícil compreender por conta do sotaque. Todos falavam muito rápido. Mas o pior, com certeza, foi procurar apartamento e conseguir todos os documentos necessários para tirar a carteirinha da universidade”, lembra. “Nos falaram que os curitibanos são muito fechados, mas logo no primeiro dia conhecemos muita gente. A verdade é que todos os brasileiros que conheci tem muita vontade de fazer amigos de outra cultura, então foi bem fácil.”

Foi pensando nesses desafios diários vividos pelos estrangeiros, que um grupo de alunos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) resolveu se juntar para ajudar os "gringos" a se adaptarem no novo país. A ideia veio através de uma aluna da PUC, que viajou para a França e conheceu o 'Bud Program'. A iniciativa funciona assim: Um estudante se candidata, voluntariamente, a “adotar” um intercambista e o auxiliar durante a estadia do estrangeiro naquele país. As atividades vão desde a ajudá-los a encontrar uma moradia, levá-los ao médico (caso precisem), até a guiá-los em atividades escolares, levá-los em passeios ou simplesmente ser um bom amigo.

O grupo, batizado como I Exchange, começou a se unir no fim do ano passado, e em janeiro deu início às atividades. Atualmente, 39 “buddies” - amigos, em inglês -, fazem parte do projeto, que apesar de ter o apoio da universidade, ainda não se formalizou oficialmente. “Quando os intercambistas chegam, parece que se agrupam por idioma, e a intenção de criar o Bud Program na PUC partiu do desejo de estreitar relações com esses alunos, e inseri-los na rotina de um brasileiro, para que sintam a nossa cultura vivendo como nós”, diz a estudante de design de produto, Aline Fabienski, 23, que faz parte da coordenação das atividades do I Exchange desde o início.

Foto: Divulgação


Giulia Cosci Bernard, 23, chegou da Itália também há um ano. Antes de vir para o Brasil como intercambista, ela já tinha morado no país para participar de um projeto de intercultura, durante o último ano de ensino médio. Por opção, voltou para estudar letras. “Não tive dificuldade nenhuma em me adaptar. Acho os brasileiros mais abertos que os italianos, inclusive os curitibanos. Acredito que a interação de brasileiros com intercambistas é importante para que não aconteçam episódios de auto isolamento, e também porque a troca de culturas é um dos objetivos fundamentais de um programa de intercâmbio”, diz a jovem.

Além das diferenças idiomáticas, estéticas e políticas, o comportamento e o hábito do brasileiro pode gerar muita curiosidade para quem vem de fora. “Uma coisa interessante é como as pessoas valorizam os shoppings e em toda esquina tem algum lugar que vende comida”, diz a italiana Giulia. Já Clau Trotamundos ficou impressionada com a quantidade de carros e o custo elevado de vida do brasileiro. “Aqui as pessoas são muito consumistas. É o capitalismo em estado puro! Eu nunca vi tantas lojas juntas. Também é muito fácil comprar qualquer coisa aqui, porque as pessoas podem dividir em várias vezes”, ressalta a intercambista.

RETRATOS DO BRASIL

Para Fabienski, iniciativas como o I Exchange ajudam a mudar um pouco algumas visões do estrangeiro sobre o Brasil. “Muitos estrangeiros vêm para Curitiba achando que aqui é como o Rio de Janeiro, um clima tropical e com muitas praias. E chegam aqui e se deparam com um clima frio e nada tropical. Então o nosso papel acaba sendo o de representantes da cultura. Nós ajudamos eles em estudo, viagens e no que precisam e em troca o que também ganhamos é a cultura deles”, completa. “É como uma reação em cadeia, que um vai passando para o outro”, diz a estudante.

A experiência de intercâmbio é tão rica, que muitos querem fixar residência no país. “Eu sempre digo que quero morar aqui para sempre, e que se encontrasse uma oportunidade de ficar mais tempo, eu ficaria”, diz Giulia Cosci. A estudante da Espanha, Leyre Rada, diz que foi o melhor ano que já teve na vida. “Nunca pensei que chegando aqui conheceria pessoas tão iguais a mim, que gostam de viajar, de aprender, que são curiosas. Pessoas de todo o mundo, de lugares distantes, com línguas e culturas diferentes, todas juntas conhecendo o Brasil e a sua cultura. A verdade é que este ano de intercâmbio está sendo o melhor da minha vida”, desabafa.

“Eu já fiz intercâmbio, mas viver com essas pessoas me deu uma perspectiva totalmente diferente de mundo”, conta a buddie brasileira. “Antes eu achava que precisava de muito dinheiro para viajar, porque tinha que pagar avião, hotel, comer em restaurantes. Resumindo, precisava de muito dinheiro. Hoje, eu dou valor a pequenas coisas como pegar uma mochila e conhecer o mundo, sem preconceito em dormir em albergue, acampar ou mesmo viajar de ônibus. Não vou deixar de viajar porque estou sem dinheiro, basta ter o suficiente. E isso tudo aprendi com eles”, diz Fabienski.

Ainda segundo a estudante, a intenção do grupo é oficializar o I Exchange para que pessoas novas sempre possam participar do projeto, e a iniciativa continue firme dentro da universidade. “Estamos caminhando nesse sentido, de deixar o programa vivo, para que ele continue mesmo quando concluirmos os nossos cursos. Há, inclusive, propostas para que essa participação passe a valer como horas complementares”, completa a jovem voluntária.

Não há restrições para entrar no Bud Program, basta ter disposição para participar das atividades e se dedicar ao programa. As reuniões acontecem a cada 15 dias, na PUCPR. O aluno que tiver interesse no projeto e quiser obter outras informações, poderá entrar em contato com a organização através facebook, digitando 'I Exchange' na busca da rede social e enviando uma solicitação de acesso ao grupo.


*Esta matéria foi produzida, especialmente, para a disciplina de produção jornalística, da PUCPR.

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