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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Considerações de um janeiro à beira-mar...

Foto: Píer de Guadalupe, Barra do Sirinhaém, PE, Brasil / Aline Souza (EE)




Olhando as fotos, os muros, as casas, as pessoas e ao redor, eu percebi que não poderia querer outra coisa se não isso... viver e viajar. Ou melhor, viver viajando. Percebi que muitos lugares nos quais as pessoas estavam conhecendo agora, eu já tinha estado. E então eu soube o quanto deste solo "verde e amarelo" eu já visitei - e ainda assim, é quase nada.

Sorri quando lembrei da água do mar batendo nos meus pés e do vento entrando pela janela do carro enquanto na minha frente só havia estrada. Definitivamente, é isso o que eu mais gosto na vida. Andarilhar...

Lembrei dos piores momentos que eu tinha passado nesses vinte e alguns anos, e em todos eles eu estava cercada de concreto. Ou seja, sufocada e desejando me libertar. E esse desbravar acontece quando eu me submeto aos meus caprichos e ultrapasso todos os limites impostos pela esquizofrenia do cotidiano e me jogo no mundo... Afinal, é assim que eu sou e foi para isso que nasci.

"Não me prenda, aprenda. Me queira por perto estando comigo e não me fixando em meio metro de quadras quadradas, em concreto ou em frente à TV. O que é do mundo, ao mundo se deve dar", matutei...

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O caminho do bem



"Eu ando pelo meio do mato, procurando rastros, seguindo histórias. Buscando sempre algo que não foi tocado pelo homem, atrás da pureza do mundo. A minha fé é a desculpa para a minha coragem. Piso descalça, sem medo de terra, bicho ou água. Estou no caminho da paz tão almejada pelos retirantes. Porque sonho com o dia em que vou acordar com o cheiro de chuva, cercada de verde e com o canto suave das aves. Sem toques, máquinas, repressões e esquisitices urbanas. Façamos o caminho do bem."


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre viagens e outras histórias...

"Há pessoas que fazem as malas mas não conhecem a própria casa, o próprio país, o próprio interior. Buscam fora o que, muitas vezes, está do lado, mas o apagão diário as impede de ver além. Essas deixam de observar as cores, ao redor, o espelho, as mananciais, o céu. Não sentem o cheiro de chuva e nem bebem da água de janeiro. Completar o traçado do mapa, adentrar caminhos diferentes e experimentar se deixar descobrir é mais valioso que qualquer roteiro comprado, carimbado e assinado. Esse é o mundo que ninguém pode roubar - o seu."

Foto: Parque Tingui (Curitiba - PR) / Aline Souza (EE)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Esse Sul tão Nordeste...

Foto: Largo da Ordem, Curitiba - PR / Aline Souza (EE)
Por aqui também dizem "Curitiba é um ovo". E é estranho quando se percebe que, apesar do raio de distância, Recife (também um ovo, como nos empenhamos em dizer) é tão próxima de Curitiba quanto se possa imaginar. Um amigo curitibano conhece vários do meus no Recife (incrível!), e na aula o professor comenta sobre um jornalista paranaense - que gosto muito, inclusive -, e também mora no Recife.

No São Francisco, frequento um bar que toca uma seleção de músicas da terra e, numa das prateleiras, vejo engarrafada e raríssima uma Pitú (Procedência: Pernambuco!). E me lembro mais ainda da terra dos altos coqueiros quando chego no Largo da Ordem posso pedir um caldo-de-cana, comprar artesanato e ouvir muita música ao ar livre, e daí reparo na semelhança que aqueles casarões históricos têm com Oh, Linda! E, não fosse a ausência do mar, eu também poderia jurar estar na pracinha de Boa Viagem. Tapioca... E quem foi que disse que aqui não tem? Falta somente a manteiga de garrafa.

Nas tradicionais casas de família, um ar de provincianismo que há muito não me engana. De qualquer forma, de um cidadão que, antes de tudo, se orgulha da capital onde vive e a preserva (e aqui o ponto vai para Curitiba, porque sobre preservar o recifense ainda tem muito o que aprender). Um famoso circuito de igrejas, asfaltos, o abandono da cidade e a fuga para o litoral nos feriados e fins de semana - e no Recife não é diferente, mesmo com Candeias, Piedade e Boa Viagem tão perto. Só uma coisa não ocorre semelhante... obviamente, o clima. E, mesmo assim, ultimamente Curitiba tem sido tão ensolarada que fica quase difícil discordar desse único ponto.

''Apesar de'', eu gosto muito disso. Dessa mistureba, um Sul tão Nordeste e vice-versa. Uma aproximação suave e necessária. Quebra de barreiras. É... Curitiba tão Recife e Recife tão Curitiba. Pois, afinal, somos um só Brasil!

Março, 2013.

domingo, 30 de setembro de 2012

Crônica de um dia de chuva


Não sentia falta de praia desde que cheguei na cidade, há quatro meses. Mas aí, Curitiba, sempre tão imprevisível, começou a esfriar. Calcei as botinas, peguei o biarticulado e fui enfrentar o gelo das ruas. Pessoas escondidas em grandes casacos de couro, cardigãs e mochila nas costas. Um silêncio ensurdecedor e olhos desconfiados - curitibanos. Gosto disso, de cada um na sua, sem meter o bedelho na vida do outro. E tenho a impressão de que se eu estivesse ali, fantasiada de boneco de Olinda, eu ainda seria ignorada. É diferente do lugar que vim, onde a presença mais discreta já é motivo de comentário ou engodo.

Eu gosto do cheiro das coisas cobertas de frio. Mas, naquele dia, especialmente, o tempo cinza e a música clássica que tocava no coletivo me trouxeram um sentimento diferente. De repente, senti falta do azul do mar e do cheiro de queijo assado na brasa. Dormir na rede, acordar junto com o sol, que aquecia os cílios de manhã cedinho - como fosse um despertador. Era hora de pôr o biquíni, passar bronzeador e ir caminhar na praia. Apenas um pouco de calor, banho de mar e sentir areia grudada nas costas. E, se desse vontade, eu tinha tudo isso a hora que eu quisesse.

Meia-noite ou meio-dia, pegava a bolsa de palha, feita pelas bordadeiras do agreste, calçava o par de havaianas, ligava o carro e ia embora. Frio eu só sabia o que era no fim de tarde, quando o mar começava a encher e os ambulantes começavam a recolher as cadeiras e mesas espalhadas pela areia quente - naquela altura já geladinha. Então me enrolava com a canga (mais famosa pela alcunha de saída de banho), prendia o cabelo salgado, e tremia baixinho. Isso era qualquer final de semana, bastava dar vontade. Uma benção!

Nos dias de chuva e sem engarrafamento, ligava o som no alto, pegava a Avenida Agamenon Magalhães sentido Pina e subia até a Bernardo Vieira de Melo, já noutro município – tudo percorrido pelo mar. Voltava sempre pela orla. Prazer imenso. Coisas que só se faz a sós, consigo mesma. Bonito era quando avistava um arco-íris, depois daquele toró. A última vez que fiz isso, parei e fotografei...

Também ninguém ficava em casa, mesmo com chuva, e Boa Viagem ainda era um colorido de roupas de banho, bonés, chinelos de verão e banhistas. Uma maravilha.

Fiquei lembrando disso tudo, naquele inverno curitibano...

Aqui, a felicidade é representada de outra forma. Todo mundo sentado e jogando conversa fora. Comendo prensadão ou cachorro-quente. Pensei nisso e sorri quando levantei a cabeça e reparei que a cena estava materializada na minha frente. Um casal fazia um pedido, enquanto um rapaz de casaco preto mordia quase quinhentos gramas de pão recheado. Meio quilo, é isso mesmo. Por apenas cinco reais. Quando o sinal abriu e o ônibus seguiu viagem, senti o frio gelar meu rosto e lembrei a quantas léguas estava da praia mais próxima. Saudades.