domingo, 13 de maio de 2012

O Recife que você não conhece

Foto: Aline Souza
Próximo ao bairro de Boa Viagem, zona Sul do Recife, área nobre da capital pernambucana, por trás de edifícios da alta sociedade e cercada pelo encontro das águas de rios, canais e fossas que formam um estuário - outrora muito mais rico em peixes e crustáceos do que é hoje – fica a a Ilha de Deus. Localizada na Imbiribeira, próximo ao aeroporto internacional do Recife, essa parte da cidade não fica tão longe dos principais cartões-postais da veneza brasileira, mas passa despercebida, inclusive, do próprio recifense. 

Na ilha, homens, mulheres e crianças formam uma família inteira de gente que luta, sonha e consegue o que quer. Sim, é uma comunidade, mas no passado já foi chamada de favela, lugar esquecido, e tinha até a alcunha de Ilha sem Deus.

Foto: Aline Souza
Chegar na Ilha, hoje, é mais fácil do que já foi um dia, quando os moradores, antes instalados em palafitas, precisavam atravessar uma passarela construída com pedaços de madeira e outros materiais de segunda mão para chegar até suas casas. O improviso mal aguentava gente, veículo nem pensar. Foram tempos difíceis, de gente que morava e tirava o sustento do manguezal para prover um futuro aos filhos com muita dificuldade.

O bonito da Ilha de Deus é a resistência e a união do povo. Como diz Dona Beró, moradora antiga da Ilha, “O povo daqui é muito unido. A Ilha é uma família. A gente pode ficar com raiva de alguém por besteira, mas se a pessoa bater na nossa porta e pedir ajuda ou um prato de comida a gente não vai negar”.

Foto: Vanessa Silva

Apesar do forte cheiro da poluição que vem da maré, mal que infelizmente atinge toda a cidade – “Recife fede!”, não é novidade ouvir isso de qualquer cidadão do mundo – a Ilha de Deus é um paraíso escondido e um berço de cultura. Mães, donas de casa e pescadoras. As marisqueiras da Ilha (mulheres que pescam marisco) fazem artesanato com as cascas que sobram do que retiram do mangue.

Fotos: Aline Souza
Na cidade, e muitos não sabem, a arte produzida ali na Ilha é vendida em grandes shoppings e chega até as casas da classe média e alta como artigo de luxo e decoração. Com o camarão, o peixe, o sururu e outros crustáceos que Ita, Thiago e tantos outros homens do mangue pescam, são preparados deliciosos quitutes que servem excelentes restaurantes da capital.

Atualmente, a realidade do local é outra. Em 2007, depois de muita promessa política e luta, principalmente, das mulheres, a urbanização começou a ser realidade na Ilha. Um projeto previa uma nova ponte de acesso, casas de concreto para as famílias e reorganização do espaço pesqueiro. E assim a Ilha de Deus está vendo a transformação...

Algumas casas já foram construídas e entregues, outras estão em fase de acabamento. Enquanto isso, alguns ainda aguardam o seu primeiro teto de concreto nas velhas palafitas. Mas sem dúvida a Ilha de Deus já pode recontar a sua história.

Foto: Aline Souza
“Hoje eu vejo a Ilha prosperar...De barco, de remo e até ponte de pau, hoje eu vejo uma ponte colossal. Quem te viu, quem te vê, quem te verá. Hoje eu vejo a Ilha prosperar... Palafita que um dia aqui reinou, hoje tá dando adeus aos seu senhor. Quem te viu, quem te vê, quem te verá. Hoje eu vejo a Ilha prosperar... Quem não acreditava e duvidou, hoje vê o lugar que Deus mudou”. (Dona Beró)

“No mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama.” (Josué de Castro)

*A história da Ilha foi recontada em uma reportagem especial produzida com o apoio do Instituto Vladimir Herzog e da Universidade Católica de Pernambuco. As linhas acima resumem o que é a vida dos 1.152 moradores do local, que aguardam ansiosos pelas novas casas. O trabalho pode ser acessado na íntegra neste endereço: www.ilhadedeus.com.br


Recife... vá ver!


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