domingo, 30 de setembro de 2012

Crônica de um dia de chuva


Não sentia falta de praia desde que cheguei na cidade, há quatro meses. Mas aí, Curitiba, sempre tão imprevisível, começou a esfriar. Calcei as botinas, peguei o biarticulado e fui enfrentar o gelo das ruas. Pessoas escondidas em grandes casacos de couro, cardigãs e mochila nas costas. Um silêncio ensurdecedor e olhos desconfiados - curitibanos. Gosto disso, de cada um na sua, sem meter o bedelho na vida do outro. E tenho a impressão de que se eu estivesse ali, fantasiada de boneco de Olinda, eu ainda seria ignorada. É diferente do lugar que vim, onde a presença mais discreta já é motivo de comentário ou engodo.

Eu gosto do cheiro das coisas cobertas de frio. Mas, naquele dia, especialmente, o tempo cinza e a música clássica que tocava no coletivo me trouxeram um sentimento diferente. De repente, senti falta do azul do mar e do cheiro de queijo assado na brasa. Dormir na rede, acordar junto com o sol, que aquecia os cílios de manhã cedinho - como fosse um despertador. Era hora de pôr o biquíni, passar bronzeador e ir caminhar na praia. Apenas um pouco de calor, banho de mar e sentir areia grudada nas costas. E, se desse vontade, eu tinha tudo isso a hora que eu quisesse.

Meia-noite ou meio-dia, pegava a bolsa de palha, feita pelas bordadeiras do agreste, calçava o par de havaianas, ligava o carro e ia embora. Frio eu só sabia o que era no fim de tarde, quando o mar começava a encher e os ambulantes começavam a recolher as cadeiras e mesas espalhadas pela areia quente - naquela altura já geladinha. Então me enrolava com a canga (mais famosa pela alcunha de saída de banho), prendia o cabelo salgado, e tremia baixinho. Isso era qualquer final de semana, bastava dar vontade. Uma benção!

Nos dias de chuva e sem engarrafamento, ligava o som no alto, pegava a Avenida Agamenon Magalhães sentido Pina e subia até a Bernardo Vieira de Melo, já noutro município – tudo percorrido pelo mar. Voltava sempre pela orla. Prazer imenso. Coisas que só se faz a sós, consigo mesma. Bonito era quando avistava um arco-íris, depois daquele toró. A última vez que fiz isso, parei e fotografei...

Também ninguém ficava em casa, mesmo com chuva, e Boa Viagem ainda era um colorido de roupas de banho, bonés, chinelos de verão e banhistas. Uma maravilha.

Fiquei lembrando disso tudo, naquele inverno curitibano...

Aqui, a felicidade é representada de outra forma. Todo mundo sentado e jogando conversa fora. Comendo prensadão ou cachorro-quente. Pensei nisso e sorri quando levantei a cabeça e reparei que a cena estava materializada na minha frente. Um casal fazia um pedido, enquanto um rapaz de casaco preto mordia quase quinhentos gramas de pão recheado. Meio quilo, é isso mesmo. Por apenas cinco reais. Quando o sinal abriu e o ônibus seguiu viagem, senti o frio gelar meu rosto e lembrei a quantas léguas estava da praia mais próxima. Saudades.


3 comentários:

  1. Aline Chegou a Egali Intercâmbio aqui em Maceió, mais uma opção para realizar aquele sonho em ser intercambista, Rua Engenheiro Mario de Gusmão, 372/104 - Ponta Verde - Maceió- AL

    Fone 82 3327.6001 ou 3327.0279. 

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  2. É isso ai, Aline. Como diz meu professor de oficina literária Deonísio da Siva, "o escritor escreve".
    Tenha saudade do sol, mas não deixe de trazê-lo no coração e na alma. Você, como recifense, traga também o frevo. A poetisa paranaense Helena Kolody, tem uma frase: "Para quem viaja na direção do sol, é sempre amanhecer".

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  3. Obrigada pela informação, Kathy! :) Bem-vinda ao blog!

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