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| Foto: Ilustração do livro "A Arte de Viajar", de Alain de Botton |
Às vezes o tempo é curto, o dinheiro é pouco ou a coragem falta. Ainda assim, nesses períodos de vacas magras, a mente do bom viajante pede novidade e anseia por lugares novos - mesmo quando o corpo não quer sair do sofá. Ler é um desses delírios que nos transportam para outras culturas, países, dimensões. Quando não estou viajando, eu me junto aos livros, que além de boas companhias me trazem sempre uma nova percepção das coisas.
Lembro-me bem da minha última viagem à Bahia. Estava com um exemplar raríssimo de uma coleção em capa de couro do livro Capitães da Areia, de Jorge Amado. Minha mãe, primas e tias passeavam e faziam fotos no centro histórico de Salvador, escadarias e elevador Lacerda, enquanto eu me divertia fingindo ser companheira de Pedro Bala e a turma do trapiche que habitavam aquela Cidade Alta nos anos 1930. Eu não conseguia esquecer a leitura e também pude vivenciar mais do que mero turismo naquela viagem. Aliás, toda vez que voltar pra Salvador tenho a impressão que vai ser desse jeito - mais humano, mais poético, mais retratado.
Em Salgueiro, Pernambuco, visitei a casa onde morava Raimundo Carreiro. E, mesmo não sendo tão fã, andar pelas ruas de um município onde cresceu um escritor que já li e reli é diferente. Não é qualquer coisa... é como se o vento soprasse diferente e tem aquela coisa boa no ar. No mínimo, de curiosidade.
São Paulo, então, me traz à memória o movimento modernista, Mário de Andrade, Chatô, além de uma "infinidade" de nomes que valeria citar, mas certamente deixaria passar algum despercebido. Aliás, encontrei um exemplar do livro de Fernando Morais (Chatô, o Rei do Brasil) em um sebo antiquíssimo no centro.
Não lembro de ter feito alguma viagem na ausência de livros. E, voltando ao assunto, mesmo quando não estou viajando tento estar sempre cercada por eles. Além dos clássicos, dos romances e dos jornalísticos, também gosto de livros sobre viagem. Mas não qualquer publicação que se gabe como literatura, eu prefiro experiências. Ou simplesmente boas histórias.

Tenho uma grande lista, mas o primeiro - até clichê - é 'Na natureza selvagem', de Jon Krakauer, que relata a história de um jovem americano abastado que largou tudo em busca do Alasca; 'A Arte de Viajar', de Alain de Botton, é dos livros de viagem mais significativos que conheço. Uma leitura que faz inspira reflexão sobre o ato de viajar e as escolhas que nos levam a apontar um lugar no mapa para nos aventurarmos.
'Cem dias entre céu e mar' e 'Mar sem fim', ambos do Amyr Klink, que ainda não li, já estão na minha lista. Não dá para deixar de citar o clássico 'On the road', de Jack Kerouac; tampouco 'A Incrível Viagem de Shacketon', de Alfred Lansing, que é considerada a maior aventura de todos os tempos. Na mesma lista é indispensável ter 'A Vida de Pi', de Yann Martel; e o querido e poético 'O Velho e o mar', de ernest Hemingway, que tenho verdadeira paixão. Aliás, Hemingway tem também "Paris é uma festa", livro que, inclusive, é citado no filme Cidade dos Anjos quando Sett (Nicolas Cage) quer descrever o sabor das coisas.
Hum... Filmes sobre viagem serão um capítulo à parte, aliás. Excelente ideia!
Gosto também dos livros escritos por blogueiros e por pessoas que viajaram e apenas guardaram seus escritos em papeis. 'Sozinha mundo afora', da Mari Campos, ´foi uma leitura bem-vinda junto com 'Saí pra dar uma volta', 'Como planejar sua viagem de mochila' e 'De carona por aí', todos do Fred Mourão. São dicas básicas para quem quer encarnar o espírito Alexander Supertramp e sobreviver no final da caminhada. Não interessa o que você lê, o importante é preencher o vazio e acrescentar milhas à sua bagagem filosófica e intelectual.
"Sob a Lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inumeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias maritimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar-oceano, as noites diante dele eram um verde-escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite." [Trecho do livro "Capitães da Areia, de Jorge Amado]
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