O couchsurfing Curitiba organizou uma saída até a aldeia Araçá-i, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Quase trinta aventureiros e viajantes saíram da capital para ir até o local, em pleno domingo de dia das mães, para visitar a comunidade indígena. Além de organizado, o grupo é muito disposto e solidário. Pessoas que têm carro se prontificaram a dar carona e no final deu tudo certo.
Saindo do centro de Piraquara, levamos cerca de 30 minutos para chegar até a aldeia. O passeio é guiado pelo gordinho Jefferson, que trabalha no departamento turístico do município. Antes de seguir pela estrada de terra, ele nos passa diversas orientações antes do encontro. Além disso, precisamos doar um valor de R$10 por visitante, que são entregues à comunidade. Segundo o guia, o dinheiro é destinado ao sustento do povo, que vive basicamente de turismo, artesanato e doações.
E antes de se impressionar, uma notícia: Os guaranis da aldeia Araçá-i não dormem em ocas, não usam cocais, não andam nus e nem empunham arcos e flechas. Essa orientação, inclusive, é a primeira coisa a se saber antes de chegarmos ao local, diante de outras histórias que o guia conta antes de chegarmos na aldeia.
Cerca de 80 pessoas entre homens, mulheres e crianças ocupam as novas terras "cedidas" pela prefeitura à Funai, e agora pertencem aos guaranis habitantes do local. Segundo gordinho, os índios foram deslocados de uma região chamada Mangueirinha, próxima de Foz do Iguaçu, por desavença com outras tribos, e se instalaram em Piraquara há 10 anos. Mas o líder da aldeia afirma que atualmente não há nenhuma desavença.
CACIQUE E ALUNO DA FEDERAL
O cacique é o jovem Laércio, de 24 anos. "É o cacique mais novo do estado do Parána", informou o gordinho. Além de chefiar a aldeia, Laércio conta com o auxílio de conselheiros mais velhos para tomar decisões para a comunidade. "É assim que funciona." E não são essas atividades que resumem o dia do líder, que passou no vestibular de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e agora cursa o primeiro período.
Quando perguntado se pretende sair da aldeia ao terminar a universidade, ele responde que não. "Quero concluir os estudos, e acho que vai ser útil na liderança aqui dentro da comunidade, mas não pretendo me afastar da aldeia Araçá-i", disse.
As casas são feitas de madeira, e os moradores produzem artesanatos no lugar, que são vendidos aos diversos visitantes. Dos costumes tradicionais, pouco ainda resta. As cerimônias de casamento não acontecem mais, e a união entre parentes também não é permitida na aldeia. Além disso, há aparelhos eletrônicos dos mais variados nas casas, e nota-se a entrada massante da cultura de consumo no lugar - como música estrangeira (que tocava no momento da nossa chegada), veículos automotivos e outros apetrechos.
O comportamento do "estrangeiro" vide: nós, visitantes, dá uma sensação incômoda. A melhor tradução para isso veio de um amigo: "Me senti mal de ver as pessoas tirando fotos. Parece até que eles são coisas, mas são pessoas. Seres humanos como nós". E isso é ratificado no mapa da cidade, no qual a aldeia está inserida no roteiro turístico local.
Na aldeia existe a estrutura da casa de cura - a qual não tivemos acesso -, e também a casa de reza, onde não foi permitido fotografar (por opção da aldeia), que possui uma espécie de altar com madeira e penas. Ali, segundo o cacique, acontecem rituais de cura e ritos religiosos. Porém, quando não há "resultado", há intervenção da medicina para curar os enfermos. O médico vai na aldeia uma vez por semana.
O gordinho, sempre falante, apresentou alguns instrumentos usados pelo povo na execução dos ritos na casa de reza e em seguida abriu uma roda de perguntas para fazermos ao cacique Laércio. Perguntei se eles sentem que estão descaracterizados da cultura, o líder respondeu que sim. "Estamos tentando fazer um resgate de costumes, mas não é fácil", reconhece.
De remanescente da cultura, talvez somente o idioma. Os guaranis são alfabetizados na escolinha Mbyá Arandú, mantida pelo município dentro da aldeia. Quatro professores nativos e bilíngues dão aulas às crianças, que em princípio aprendem o tupi-guarani e depois são alfabetizadas em português na escola, segundo o cacique.
No fim da visita, uma apresentação musical. Para mim, foi o momento em que me senti conectada à cultura indígena que pena em resistir. O canto de crianças, mulheres e homens guaranis preencheu a nossa tarde de domingo com um canto que parecia se mover como o vento e fazer parte da natureza.
Fotos: Giulia Cosci Bernard / Especial para o EE
Imagens: Aline Souza / EE
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