segunda-feira, 9 de julho de 2012

Vagão três

Tão frio e tão cedo, fui logo recepcionada com um ótimo atendimento da Serra Verde Express - meu bilhete já estava impresso e aguardando por mim, sem nenhuma burocracia. Depois de uns minutos os demais passageiros começaram a chegar na rodoferroviária e fotografar tudo. Apesar de ser uma quarta-feira, achei grande a quantidade de viajantes e também de turistas.

Leia também: Curitiba - Morretes: Viajando de trem pela serra do Mar;
                      Curitiba: Batel, Santa felicidade e o querido Cancun Bar;
                           Curitiba: Sete graus;


Passeio de trem pela serra do mar é o segundo destino turístico mais famoso do Paraná
Foto: Aline Souza / EE

Falando em turista, uma senhora muito auspiciosa entusiasmada sentou ao meu lado enquanto aguardávamos o embarque, e logo puxou assunto num português bem esquisito. Primeiro me pediu para tirar uma foto dela e depois começou a tagarelar.

- Olha, você tira uma foto minha aqui?
Respondi que sim e fiz a foto.

E depois que peguei a Kodak para fazer um único clique ela não me largou mais. Me contou que tinha nascido no Egito mas morava em Nova York há muitos anos. Me perguntou inúmeras coisas, inclusive sobre hospedagem (onde eu estava, quando tinha chegado e se ficaria muito tempo na cidade) e contou que já visitou mais de 33 países e só gostava de se hospedar em albergues – o que achei muito interessante devido ao exibicionismo dela.

"Não gosto de hotel. Em albergue tenho o mesmo serviço e pago menos. Os albergues daqui são muito bons. Agora estou no Roma Hostel, você conhece?", perguntou a senhorinha.

Nunca me hospedei no Roma Hostel, mas já ouvi/li ótimas referências sobre o local. Mas já passei na frente (ele fica próximo ao Shopping Estação) e achei um charme. E depois, um elogio vindo de uma estrangeira, então, não há muito o que duvidar. Fora que a egípcia era, acima de tudo, exigente (percebi pela quantidade de vezes que me fez repetir as fotos dela). E uns vinte minutos depois, embarcamos no vagão três. Só acreditei que estava ali quando ouvi o sinal de fumaça do trem... “Estamos partindo. Maravilha!”

O guia era o Fábio Rozalinski, muito bem informado e simpático, aliás (mesmo com os passageiros mais cabulosos. E, acreditem, tinham vários). A estrada de ferro pela qual passaríamos é a segunda rota turística mais famosa do Paraná (só “perde” para as Cataratas do Iguaçu). Ela foi projetada pelos irmãos Antônio e André Rebouças (primeiros engenheiros negros do Brasil), que foram contratados exclusivamente para encabeçar o projeto. Na época, a ferrovia era a principal e mais rápida ligação até o litoral paranaense.

Inaugurada em 1885, em 2 fevereiro de 2012 a ferrovia completou 127 anos – mas parece uma menina de 15. Com o passar dos anos a estrada também começou a ser utilizada comercialmente, como é até hoje. De Curitiba até Morretes o percurso é: Curitiba – Pinhais – Piraquara – Morretes. Mas a ferrovia segue até o porto de Paranaguá.

Dica do guia: O filme brasileiro “O Preço da Paz” foi todo filmado no Paraná e conta um pouco da história do Estado.

Estação Marumbi
Durante o percurso passamos pelo Cânion do Ipiranga, Cachoeira Véu da Noiva, Garganta do Diabo, Cruz do Barão (local onde o Barão do Serro Azul, heroi paranaense, foi fuzilado), Ponte São João (toda construída em aço), Viaduto do Carvalho, Rio Taquaral, Pico do Marumbi (onde fica a estação de mesmo nome e, segundo o guia, o local serviu como cenário para uma cena da novela O Astro), a Represa de Cangaíba (dizem que alguns aventureiros acampam ali), além de várias ruínas aos redor das estações que, na época de construção da ferrovia, eram casas de operários que trabalhavam na obra ou pequenos comércios.

Ali de dentro do vagão eu quase poderia ver senhores de paletó e senhoras com vestidos drapeados e sombrinhas viajando de trem. Ao redor, se não estivesse tão frio, eu iria querer acampar no meio da mata e tomar água da chuva. Ainda assim arrisquei congelar meus dedos colocando a mão para fora da janela só para tocar nas folhas das árvores. Um pedacinho de história, um pedacinho de mundo.

Aproximadamente três horas e meia depois, chegamos em Morretes...



0 Comentaram este post:

Postar um comentário

Sugestões e outros comentários também podem ser enviados para aline@entreembarques.com.